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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

A pipa do meu vô não sobe mais

Meu vô é mestre em pipas. Pipas, ou papagaios, como queiram. Eu prefiro chamar de pipa. Pois bem, meu avô é expert na arte de construir pipas. Pipas que rasgam o céu azul de Santo Antônio da Platina, voando levemente com a brisa das férias. Minha maior lembrança da infância é ver meu vô vendendo pipas e jujóias (ou saquinhos, ou sacolés) nas tardes quentes do verão platinense.

Eu passava horas e mais horas na casa da minha vó durante as férias. Às vezes meu primo também ia. Nos dias mais animados, brincávamos com os vizinhos em um terreno abandonado ali do lado. Fazíamos caça ao tesouro, que não passava de uma latinha ou qualquer outro objeto que achávamos. Ou simplesmente ficávamos conversando sentados nas ruínas do que um dia tinha sido uma casa, enquanto tentávamos destruir as pequenas paredes que ainda estavam em pé. Os tijolos mais antigos são mais resistentes!

Em outros dias, outros tempos, brincávamos de carrinho de rolemã na rua da casa da minha vó, íngreme e não tão movimentada como hoje. Lembro de minha vó gritando pra gente brincar na calçada. Eu não gostava da calçada: me fez arrancar uma lasca da ponta do dedão do pé em uma descida mal planejada pelos co-pilotos. O freio falhou e eu estava de chinelo. Ou eu parava com meu pé na calçada de cimento ou ia direto para a rua e um buraco do outro lado, correndo o risco ainda de ser atropelado. Fiquei com a primeira opção.

Bom, mas voltando às pipas, dizia que meu vô é mestre nessa arte. Nas férias, vendia cerca de 10 a 15 por dia! Os garotos deviam me invejar por não ter que pagar minha pipa e ainda poder escolher a cor e o tamanho da rabiola (a cauda, feita com tiras de sacolas de plástico). E ainda tinha jujoia de graça! Qualquer sabor, a qualquer hora. Era a infância perfeita na casa da minha vó.

Hoje meu vô não constroi mais pipas com a agilidade de antigamente. Não que sua técnica tenha sido esquecida ou seus movimentos tenham ficado menos ágeis. É que não precisa mais atender a tanta demanda. Vende uma, ou duas, por semana. Segundo minha vó, os garotos aprenderam a fazer pipa. Não precisam mais comprar. O papel encontra em qualquer papelaria, com inúmeros desenhos, de todos os tipos e cores. O bambu é fácil de achar no supermercado ou em lojas de produtos rurais. Tudo ficou muito fácil. E meu vô não vende mais pipas. Mas eu garanto que nenhum desses garotos conhece a arte de construir pipas. Só sabem fazer. Isso até eu sei. Mas construir mesmo, com toda a engenharia milimétrica, rústica e apurada, é só com meu vô. Eles não sabem o que estão perdendo!

Texto: Eduardo Godoy

domingo, 19 de dezembro de 2010

Natal do consumismo

Mais um Natal. Mais uma vez o consumismo ofuscando o motivo principal da festa. Em 2009 já escrevi sobre isso nesse mesmo espaço. Tinha esperanças que em 2010 o nascimento de Jesus aparecesse mais em relação à forma capitalista de comemorar. Que engano. As propagandas com produtos natalinos começaram no início de novembro, há cerca de dois meses da data.

Comprar, comprar e comprar! Este é o grito de guerra que move os consumidores. “É só uma lembrancinha”, “Presente de amigo-secreto”, “Tenho que fazer uma lista pra não esquecer de ninguém”, “Meu 13º vai todo pra comprar presentes”. Essas são as frases mais ouvidas em reportagens sobre compras de Natal na 25 de Março, em São Paulo (‘carne de vaca’ que faz parte do calendário jornalístico contemporâneo). Para os vendedores e empresários, vender, vender e vender! Tenho a impressão de que antes de começarem a jornada de 14 horas exaustivas de consumismo desenfreado, os lojistas gritem “vender, vender e vender!”.

As metas aumentam a cada ano. Porcentagens só sobem. Produtos estão sempre mais modernos. Crianças querem sempre mais. E no meio disso tudo, até os presépios vão desaparecendo das vitrines. Quem deu início a toda essa festa é esquecido, renegado às pequenas representações. Ninguém mais lembra o porquê de tantas compras, tanta comilança na ceia do dia 24, tanta confusão pelos melhores presentes.

Jesus? Ah... é aquele que nasceu na Páscoa, não é? O cara que realmente importa em dezembro é o Papai Noel. E em 2011, infelizmente, será da mesma forma.
Texto: Eduardo Godoy

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Olhos sonhadores


Milhares de pessoas passam por nossas vidas. Porém, algumas têm o poder de nos marcar, como uma cicatriz interior. Um momento eternizado não em nosso corpo, mas sim em nossa alma.

Francesco tinha a certeza de que conhecera aquela mulher. A imagem da juíza da Vara da Criança e do Adolescente, responsável pelo caminho de dezenas de pequenas criaturas sem uma vida familiar consistente, não lhe era estranha. Drª. Lorenza respondia às perguntas do jornalista com um ar sério. O entrevistador, entretanto, fitava aqueles olhos profundos tentando se lembrar de onde os conheciam.

Vinte e dois anos antes, em uma agitada madrugada de sábado. Era isso! Os olhos sonhadores, lembrou-se. A noite não devia ter sido boa, imaginava ele observando o suporte de algodão doce, ainda cheio, que a menina de 16 anos trazia junto ao braço. No drive-thru de uma rede de lanchonetes, em meio aos pedidos dos amigos, a adolescente chegou e ofereceu seu produto, simples, genuíno, bem diferente dos pequenos sanduíches vendidos a preços exorbitantes pela rede. “O azul tem mais sabor. Eu já experimentei todos, mas agora já enjoei”, revelou a pequena vendedora.

O ainda estudante de jornalismo aceitou um algodão doce. Ou melhor, comprou um algodão doce. E puxou conversa, enquanto seus amigos decidiam se pegavam batatinhas fritas e Coca-cola, junto com o lanche. Ele descobriu que a menina estudava de manhã (tinha repetido de ano três vezes, por isso ainda estava na 7ª série), cuidava dos sobrinhos à tarde e vendia algodão doce à noite. Tripla jornada, que começava quando ela acordava olhando para o suporte do produto enroscado em cima da sua cama. O estudante ficou imaginando como era acordar desta maneira. E como ela enroscava um troço daquele em cima da cama?

Bom, mas ele lembrou-se dela pelo sonho revelado naquela noite: estudar Direito e ser juíza da Vara da Criança e do Adolescente. “Já passei por lá várias vezes”, tentou justificar a garota. Agora estavam ali, frente a frente. A menina sonhadora e o estudante de jornalismo. A juíza e o jornalista. Duas vidas cruzadas há anos atrás, por poucos minutos, sem encontravam novamente. Quanta mudança, física e temporal, marcava os dois. Mas aqueles olhos não enganavam: era a vendedora de algodão doce. Ou melhor, de esperança.

Fim de entrevista. Depois de tantos pensamentos, a sorte do repórter era ter utilizado o gravador para registrar a fala da doutora. Não conseguira se concentrar um instante no que ela dizia. Decidiu que não revelaria nada, naquele momento, sobre a lembrança. Agradeceu a entrevista e voltou para a redação.

No outro dia, um algodão doce azul deixado na sala da juíza fez a confirmação. “Ele também lembrou”, pensou a vendedora de esperança.

Texto: Eduardo Godoy

domingo, 24 de outubro de 2010

Um conto de eleição

“Vai, corre! Faz a foto, cara!", gritou pra mim o motorista do carro de reportagem, que há alguns meses – desde que começou a dirigir para o jornal - teve a vida inundada de fotojornalismo.

Era um garotinho de uns oito anos, todo maltrapilho, juntando os santinhos que traziam a cara de um determinado político. Era a foto do garoto que chamou a atenção do motorista. O pequeno moleque juntava os papeizinhos para vender por quilo na cooperativa de papel, fui descobrir depois. O piá Francisco, que aparentava um bixo de tão sujo que estava, parecia crente da vitória do tal político.

Na madrugada em que conheci Francisco ele me disse que o futuro dele já estava perdido porque havia começado a “trabalhar” como “aviãozinho” para o dono da comunidade. Uma garoa fina caía e a noite quieta, como sempre, estava de congelar os ossos. Eu, com três blusas, me senti envergonhada por ver o menino com uma calça de moletom toda furada e uma camiseta que se mostrava alguns números menor do que ele.

Passei algumas horas conversando com o garoto, enquanto o motorista do jornal divertia-se com a maravilhosa Nikon D3. Ao me despedir de Francisco, o pequenino me olhou com os seus olhos negros como a noite e me disse “vota direito, tia. Pensa, porque você tem na ponta do dedo o destino de muita gente, inclusive o meu”! Então me despedi, dando ao garoto os trocadinhos que estavam soltos no bolso do meu casaco, pois ele aparentava um imenso ar de fome. Ele, todo faceiro, saiu depois de catar as sacoladas de santinhos e os seus trocadinhos.

Eu fiquei. Aquela fatídica madrugada – comum para mim, visto meu trabalho - que antecedia a "festa da democracia", me fez pensar no meu voto, no que julguei ser melhor. Eram três os mais cotados para a presidência, porém apenas um ganharia e ocuparia a cadeira mais importante do país. E seria sentado naquela cadeira que decidiria o que é melhor para o Brasil. Para minha esperança (ainda não decidi se é mesmo esperança) a pessoa que prometeu cumprir um sonho de qualquer garoto de oito anos, que é ter uma bicicleta, não foi eleita no primeiro turno.

Quando entrei no Fórum Eleitoral às seis horas da tarde de domingo, dia 3 de outubro de 2010, vi um garotinho que me lembrou Francisco. Me encostei ao lado de uma imensa pilha de urnas eletrônicas que haviam acabado de ter suas fitas impressas. Ao olhar o telão e ver que o segundo turno era real, pensei que ainda haviam esperanças para o futuro de milhões de Franciscos que estão por aí. O sábio garoto teve sua fala mais certeira ao dizer que eu deveria votar direito e que o voto deve ser pensado, pois as rodas da vida irão girar pelos próximos quatro anos de acordo com o caminho que os 190 milhões de brasileiros irão escolher.

Texto: Luiza Slaviero - @luhslaviero

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Cidade Joia



A maior cidade da mesorregião do Norte Pioneiro do Paraná (IBGE, 2009), Santo Antônio da Platina, começa sua história com a chegada de colonizadores desde 1880. Em 1901 cria-se o “Distrito de Paz no patrimônio Santo Antônio da Platina” do município de Nova Alcântara (atual Jacarezinho). Seu desmembramento e elevação a município acontece em 1924.

O nome, segundo o historiador Israel Pereira de Castro, é contestado por três famílias, porém os relatos são muito parecidos. A “Platina” provém, certamente, das águas claras que corriam próximo à serra da Pedra Branca – local de início do povoamento e, hoje, distrito da Platina – que poderia conter o minério ou brilhava muito quando o sol as refletia. Já o “Santo Antônio” é, segundo a família Pedreiros, originário do nome Antônio de quatro de seus integrantes: o sogro, a sogra, o pai e um primo. A família Messias afirma, porém, que a procedência é da devoção do povoador ao santo. Por fim, os Albanos não explicam a origem do início do nome, só o final.

A “Cidade Jóia”, como é conhecida, completa 96 anos de emancipação política e administrativa em 20 de agosto próximo, contando com 40.002 habitantes (IBGE, 2009). É cidade polo comercial e médico da região. No turismo, destaca-se o Morro do Bim com a imagem do Cristo Redentor no seu alto, antiga Estação Ferroviária da Platina e a Igreja Matriz. Entre as belezas naturais estão os ipês rosas e amarelos que colorem a Avenida Oliveira Motta, Calçadão Manuel Arrabaça Ribeirete e Praça Frei Cristóvão Capinzal, dentre outros pontos; o Morro da Cruz, serra Pedra Branca e Rio das Cinzas. Eventos importantes são a Efapi - Exposição Feira Agropecuária, Industrial e Comercial do Norte Pioneiro - e a época natalina, com o Natal Brilho Total e o espetáculo Natal de Luz. Na área jornalística, possui um jornal impresso diário (circulação de terça a sábado) e dois semanais, uma revista, duas rádios e três sites puramente noticiosos. Para a formação, conta com uma instituição de ensino privada que oferta o curso de Jornalismo.






Texto:
Eduardo Godoy

Fotos:
Eduardo Godoy

1 - Igreja Matriz/Paróquia Santo Antônio de Pádua
2 - Ipê amarelo na Avenida Oliveira Motta
3 - Arco-íris chegando na Igreja Matriz
4 - Morro do Bim

domingo, 1 de agosto de 2010

Pode mudar?

O logo da Copa do Mundo FIFA 2014 foi lançado há pouco tempo. Mesmo eu não gostando da Copa do Mundo (e de muitos aspectos do futebol), gosto de ver a arte gráfica das competições. A da África do Sul eu gostei. Já a do Brasil, achei estranha. Como o designer gráfico norte-americano Felix Sockwell contou à Flávia Perin, do UOL Esportes, a ideia é boa, já a execução é deficiente. Aqueles dedos parecem de alienígenas. A cor é opaca e feia. Aquele 2014 em vermelho no meio ficou estranho. Ou seja, não gostei. Pode contratar o Sockwell para mudar?



Alguns trechos da matéria:

Em tom bem-humorado, o diretor de arte – que acumula experiência em grandes agências de publicidade como DDB, The Richards Group e Ogilvy – mapeou os pontos críticos da marca oficial da Copa de 2014, que tantas polêmicas tem motivado desde que foi lançada. Para ele, a ideia parece “OK”, já a execução é gravemente deficiente e as proporções do troféu não foram corretamente elaboradas.

Sockwell afirma que esteticamente as mãos do desenho não parecem humanas, que mais lembram a forma de sapos. Além disso, ele argumenta que o fato de os dedos estarem grudados pode gerar problemas de impressão em tamanhos menores.

Sobre o “2014” inserido no logo, questiona: “Os números aqui? Por quê? E por que em vermelho?” Ele ressalta que seria melhor empregar apenas duas ou três cores, e não adicionar uma quarta. “O Brasil é verde, azul e amarelo. Tirem o vermelho.”

As graduações de cor (tons entre verde e amarelo no topo da taça) também são desnecessárias, na sua opinião: “Gradientes não produzem bem em uma cor, especialmente sobre pano, couro e superfícies ásperas. É melhor mantê-las [as tonalidades] simples.” Segundo o designer, quanto mais simples, mais se enfatiza o aspecto tridimensional.

Outra falha apontada pelo norte-americano se refere aos símbolos de “Registrada” e “Copyright” (identificados pelas letras R e C), que poderiam ser substituídos apenas por “Trademarked” (TM) em tamanho menor.



Matéria disponível em:
http://esporte.uol.com.br/futebol/copa-2014/ultimas-noticias/2010/07/30/designer-dos-eua-descreve-logo-da-copa-2014-como-um-pesadelo.jhtm

Espera-se a novidade

São Paulo, 14 de julho de 2010



Tarde fria e chuvosa, tempo característico da capital paulista. São Paulo é conhecida como a terra da garoa, não que essa antonomásia seja adequada contemporaneamente, caberia melhor terra dos temporais ou mais amplamente a terra que saturou.

A segunda maior cidade da América Latina tem um número de habitantes descomedido: 10.886.518. Estes algarismos se refletem na economia, sendo assim dona do décimo maior acúmulo econômico do mundo e que inevitavelmente tem resultados no seu sistema de transportes e moradia, constituindo cernes de discussões constantes, mas de soluções ainda não existentes.

A exposição de números sobre a capital econômica do país poderia tomar um espaço e tempo imensuráveis com a amostra de dados sobre a quantidade de água gasta por seus habitantes, a produção de lixo em São Paulo, o quanto deste lixo é reciclado e assim por diante. Porém não é este o objetivo deste texto. Tais informações poderiam ser facilmente obtidas em qualquer site de buscas ao alcance de alguns meros cliques.

Todavia, essa imensidão de dados é inerte se não for analisada de uma maneira minimamente crítica e menos elitista possível. É difícil imaginar como essa quantidade imensa de pessoas se locomove em uma cidade que não foi planejada para tanto, sem contar com os outros tantos indivíduos residentes nos municípios vizinhos - a urbe que forma a chamada área metropolitana - e se dirigem à capital para trabalhar, estudar ou fazer compras. Levando em conta isto, essa idealização fica cada vez mais distante e até certo ponto impossível; não que isso preocupe as autoridades responsáveis, que apenas colocam ‘panos quentes’ no assunto para a próxima gestão, concebendo assim uma discussão sem afinco e objetivo.

Esta constatação, que não é inédita obviamente, interessa muito mais ao proletariado do que à elite, pois esta tem meios para amenizar tal incômodo e não depende tanto do transporte público e outros serviços quanto a classe operária. Até aqui, nada de novo. A nata política não se empenha em resolver o problema de uma vez por todas e assim apenas o maquia temporariamente, enquanto a grande massa sofre com o descaso.



A inovação acontece quando a época de campanha eleitoral se aproxima e com ela os poucos representantes do poder saem de seus palacetes e se dirigem aos grandes conglomerados populacionais, transportados obviamente por seus carros de luxo, para pedirem, e muitas vezes comprarem, o voto dessas pessoas por quantias desprezíveis ou até mesmo por comida, remédios e até dentaduras.

Até aqui a novidade é periódica. A cada campanha eleitoral recomeça a atividade teatral dos candidatos - como também é periódico o ufanismo dos brasileiros, a cada quatro anos lá estão as bandeiras à mostra em todas as casas e lugares, acompanhadas de um patriotismo meramente futebolístico.

A novidade será realmente nova e inédita quando alguém enxergar um político usando o transporte público em São Paulo e sentindo-se satisfeito com isto, quando o paulistano não perder quatro horas por dia no trânsito e quando alguém, com poderes e vontade suficiente, finalmente se empenhar em resolver tal empecilho legitimamente metropolitano.

Texto:
Afonso Verner

Fotos:
1 - Glauco Araújo/G1
2 - Luiz Guarnieri/Futura Press

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Reticências



Você já parou para pensar quantas coisas estão acontecendo nesse momento em que lê isso? Uma criança está nascendo, uma pessoa está morrendo, alguém acabou de ser atropelado, um casal está transando, crianças estão estudando, um filme está sendo gravado, um patrão está demitindo, o jornal está sendo impresso, em algum lugar está chovendo, em outro fazendo muito sol, outro ainda a lua cheia toma conta da noite, um tiro foi disparado neste momento, o lápis quebrou, uma flor murchou, caiu um copo, alguém experimentou um prato novo, amigos se reencontraram, uma foto foi tirada, um carro bateu numa árvore, a luz queimou, uma árvore foi derrubada, alguém está escrevendo em um blog, outro alguém está lendo.

Infinitas coisas acontecem a todo o momento. Já dizia, corretíssimo, o mestre Cazuza: "O tempo não para". Parafraseando, o mundo não para. O silêncio que toma conta da noite lá fora é infinito. Agora aqui, daqui a pouco ali, depois lá e de volta aqui. Assim é também com nosso dia, consequentemente. Nada para. Mais um mistério da vida, que não admite um pause ou que fique no modo stand by.

O relógio continua girando, sem parar. E o mundo vai se transformando. Esta mutação constante é resultado da insatisfação humana, da necessidade de ação, da busca pelo ideal e da felicidade (e sem entrar na questão do processo capitalista para não gerar mais discussão, que não é a função deste texto). E a felicidade nunca vai chegar completamente. Não sou pessimista não! Você já viu alguém parar na vida porque encontrou a felicidade total? Certamente a resposta é não. Vivemos buscando sempre algo novo que achamos que satisfará nossa necessidade. Quando conseguimos, dizemos que estamos felizes, porém sempre falta algo ou aquela sensação passa rápido. E lá vamos nós de novo... Isso se repete inúmeras vezes ao longo de nossa vida biológica, impreterivelmente.

É isso que faz a roda-gigante da vida girar. E é bom! Assim não desanimamos (na maioria das vezes, claro) e estamos sempre na práxis. O relógio não parou. Aliás, quanta coisa aconteceu nesses minutos que você parou para ler?


Crédito da foto: disponível em http://maribraga.wordpress.com

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Cotidiano anestésico



A sucessão de dias atarefados, tão culpada por ser a causa de nosso stress e mau humor, também é a responsável por nossa profunda indiferença a certas ocasiões rotineiras e que mostram o grau de nossa apatia a degradante situação de alguns seres humanos.

Poucos percebem e se importam com isto, mas nas calçadas da maioria dos grandes centros urbanos existem pessoas deixadas a mercê da sorte após uma desintegração familiar, problemas com drogas ou simplesmente desentendimentos domésticos que não foram resolvidos e o destino destes cidadãos foi a rua. Às vezes nossa percepção de tais fatos e situações está tão alienada que torna estas pessoas elementos integrantes a paisagem cinzenta da “selva de pedra” e o cotidiano por elas enfrentado faz com que percam a dignidade e até mesmo se esqueçam de quem realmente são.

Esta humilhante situação é demasiadamente ultrajada pelo martírio do uso de drogas, condição recorrente a grande parte dos moradores de rua e que, em certo ponto, potencializa a criminalidade nos grandes centros. Esta situação poderia ser facilmente questionada por um discurso individualista e até certo ponto preconceituoso e determinista de uma gama da sociedade brasileira, de que tais cidadãos estão lá por vontade própria e que se chegaram até o fundo do poço foi por falta de mérito, dirigindo-se assim para a questão da meritocracia.

Enfim, os discursos podem ser variados e os “achismos” constantes, mas ambos voláteis demais para uma explicação racional de tal situação e pior, de nossa indiferença perante ela. Uma direção para tal resposta pode ser a avidez com que nossa sociedade engole as pessoas que não se adéquam a suas regras estanques e seus preceitos aniquiladores. Os marginalizados neste processo podem ter este caminho, ainda mais provável se não forem de família abastada financeiramente.

Os responsáveis assinalados por tal martírio dos marginalizados podem ser vários, dentre eles o Estado, Família e até eles mesmos, os próprios moradores de rua. Porém, fato é que estas pessoas - que tem sentimentos e dignidade como nós, ainda que estes estejam perdidos em meio a tanto sofrimento e desilusão, estão à margem do convívio social, das tecnologias de que o homem faz uso, do bel prazer da vida e tudo que tem ao seu alcance são as frias calçadas, drogas e uns litros da bebida alcoólica mais barata.


Texto de Afonso Verner - @afonsoverner
Foto: Agência Brasil, em http://www.portalibahia.com.br/falabahia/?p=17097

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Silêncio, o jogo começou.



E chega mais uma Copa do Mundo da FIFA. Bandeiras verde-amarelas por todos os lados, lojas tematizadas com futebol, ruas pintadas, pessoas tentando decorar o Hino Nacional, imprensa recheada de pautas da África do Sul, da Seleção Brasileira, do ufanismo demasiado e tudo mais o que tem direito. E o patriotismo surge como se hibernasse desde 2006 nas gavetas da maioria dos brasileiros.

É impressionante ver como o sentimento de "ser brasileiro" se aflora em época de Copa. E assim acontece de quatro em quatro anos religiosamente (ou melhor: “futebolisticamente”). Milhões de pessoas param em frente a uma televisão para externar o amor à pátria, à Seleção Brasileira. As ruas ficam vazias durante os jogos do time deste país tupiniquim, funcionários são dispensados facilmente de suas funções (em paradoxo com a dificuldade de conseguir folga para ir ao médico, acompanhar um filho em uma reunião escolar, resolver problemas burocráticos, etc.) e até quem não gosta do esporte vira fanático durante os 90 minutos. Na quarta-feira, 16, o deputado estadual Antônio Belinatti (PP), em pronunciamento na Assembleia Legislativa, disse ser “uma atitude desumana e anti-patriota dos diretores do Mercadorama, que não dispensaram os funcionários. Os caixas tiveram que ver o jogo em uma telinha apertada e não dava nem pra enxergar a bola!”.

Mas por que ser patriota somente por um período de um ou dois meses e só em uma área (o futebol)? O Brasil ganhando ou não, quando a Copa acabar, em julho, as bandeiras vão sumir, o grito de brasilidade sufocar, o povo voltará a falar mal do país e da política e o Hino... bom, o Hino ainda não deu para aprender bem, mas em 2014 estará afinadíssimo! Ninguém reclama das partidas e da grande cobertura da imprensa, mas será visível a irritação do povo com o Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral para as Eleições 2010. A partir de julho (espera-se) os grandes meios de comunicação de massa voltarão a dar o espaço devido para falar do maior desastre ecológico da história dos Estados Unidos, o derramamento de até 9,5 milhões de litros de petróleo por dia no Golfo do México; das Eleições majoritárias para presidente e governador e das proporcionais para senadores e deputados estaduais e federais, que decidirão os próximos quatro anos da vida dos brasileiros; do enriquecimento de urânio por parte do Irã e que ainda não chegou a um acordo com as Nações Unidas na questão nuclear; do Projeto Ficha Limpa que passará a valer a partir do pleito deste ano, de acordo com decisão do Tribunal Superior Eleitoral nesta semana; dos Diários Secretos da Assembleia Legislativa do Paraná e da ainda permanência da Mesa Diretora da Casa; da crise econômica de países europeus, principalmente a Grécia; entre tantos outros temas factuais que merecem a atenção pública.

Com a mídia regional o quadro não é tão preocupante, dado que a abrangência é menor e os interesses jornalísticos são diferentes, mais voltados às notícias locais. Porém, o exagero empregado em grandes grupos da comunicação (principalmente na TV aberta) deve ser algo a ser analisado. O jornalista e político Barbosa Lima Sobrinho, em seu livro O Problema da Imprensa (lançado em 1923 e reeditado em 1997 pela ComArte), cita Tobias Monteiro para afirmar que a pauta jornalística é feita a partir da necessidade do público: “Dizem que os povos têm o governo que merecem. Parodiemos: os povos têm a imprensa que merecem.” A influência midiática parece fazer efeito no povo brasileiro. Infelizmente é o que é visto há uma semana. Porque nos futebol somos os melhores. Já em outras áreas, bem... deixa a Copa passar e depois discutimos.


Crédito da imagem: http://andresonlima.blogspot.com/

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Uma moedinha, tio?


Três dias seguidos. Saio da padaria com meus três pães franceses na sacola e, sentado no degrau mais baixo da escada, um menino com roupas velhas e olhos tristes, clamando piedade. "Uma moedinha, tio?". Tenho medo, vergonha, tristeza. Só abaixo a cabeça e sigo. No primeiro dia parece-me normal. No segundo, me sinto incomodado comigo mesmo. No terceiro, resolvo: não vou dar dinheiro. Hoje, quando fui à padaria, como de costume no final da tarde, me lembrei do garoto quando a atendente me pergunta o que vou levar. "Quatro pães, por favor". E torço pra encontrar com ele novamente no mesmo local. Não há surpresa: o menino está lá com a mesma roupa, com os mesmos olhos e com a mesma abordagem. "Uma moedinha, tio?". Aquele foi o momento. Meu dia estava ganho. Meu coração palpitou e acho que fiz uma cara de bobo alegre. "Pode ser um pão?". Ele aceita na hora e seus olhos parecem que atravessam uma barreira. De um lado o garoto triste e com fome, do outro a alegria por ter ganhado um pão. Um pão.

Depois que abri a sacola e entreguei aquele simples alimento pra ele, só vi que jogou algo que mastigava para passar o tempo no chão e levou o pão à boca. Não deu tempo de ver se realmente o comeu. Uma ponta de curiosidade bateu pra voltar pelo outro lado da rua e ver se ele realmente estava comendo ou se tinha jogado fora. Logo passou. Não importa o que ele fez, a minha parte acho que foi feita. Nem olhei pra trás, apenas segui.

Quando vinha pra casa, fiquei pensando. Por que será que é tão difícil a gente olhar pra quem está ao nosso lado? Três pães custam em média 1 real. Cada pão custa aproximadamente 35 centavos! Os 35 centavos perdidos na carteira, encontrados na rua, esquecidos na mesa... mas são os 35 centavos que o garoto dos olhos tristes não têm. Parece ser tão mais fácil apenas abaixar a cabeça e não dar bola pra quem te chama, ou dizer que não tem. Eles sabem que, se temos dinheiro pra ir numa padaria (e essa não é uma padaria das mais baratas), temos 35 centavos para ajudá-los.

Aí vem alguém e me pergunta: mas por que não vão trabalhar ao invés de ficar pedindo dinheiro? Essa pessoa nunca deve ter passado em frente à Agência do Trabalhador às 7:30h e visto a fila imensa de trabalhadores desempregados à procura de uma chance. Os mesmos à cada manhã. Vagas chegam a sobrar, mas pedem experiência, escolaridade, cursos, referências... Que chance vão ter as pessoas que não tem o cuidado e a atenção do poder público? Aquele garoto pode não ter um leque de informações que o ajude a entender que a escola é (ou deveria ser) essencial para sua vida.

Aquele pão pode não fazer a mínima diferença pra ele. Talvez ele esteja pedindo dinheiro para outras coisas e aceitou o pão só pra disfarçar. Ou não, ele pode realmente estar com fome e depender daquele alimento. Nada disso eu sei. Mas amanhã comprarei quatro pães novamente.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Outras vidas: teatro



O refúgio. Onde podemos ser quem quisermos, mostrando sempre a dualidade que faz a roda-viva que é nossa vida girar: a vida e a morte, o começo e o fim, o branco e o preto, o bem e o mal, o bom e o mau, o sim e o não. Pois no teatro, tudo pode acontecer. Todos podemos acontecer. Independente de quem sejamos, podemos ser o que não somos. Vemos a vida de outro modo. Vemos a vida pelos olhos de um menino, de um herói, de um vilão, de uma sombra no meio da vida corrida das pessoas, de um animal. Podemos iluminar um espetáculo, como uma mãe que permite que seu filho veja a luz do mundo pela primeira vez. Podemos musicalizar um espetáculo, como um pássaro que a gente ouve nos nossos melhores ou piores dias. Podemos errar, errar e errar. Sem medo, pois no próximo espetáculo teremos aprendido com o erro. É no teatro que mostramos a alegria do circo, a esperança de uma criança, o renascimento após uma guerra, enfim, mostramos ao público a vida, e, principalmente, aprendemos sobre este mistério inexplicável.

P.S.: Saudades das manhãs de domingo de Cia de Teatro Donalou. E d'Os Sombras.

sábado, 1 de maio de 2010

Um mundo novo

Primeiro ato
Há 120 dias começava mais um novo ano. 2010 prometia ser bem diferente. Mas nem tanto como está sendo. Eu continuaria a trabalhar na Tribuna Platinense, tinha projetos de trabalhar em rádio, de uma Agência de Jornalismo, de continuar fazendo free lance. Iria cursar Jornalismo na Fanorpi e continuaria a morar com meus pais, na minha cidade, com as minhas pessoas a minha volta. Eis que numa jogada esperta do destino tudo vira de cabeça pra baixo. Numa manhã de sexta-feira tranquila, jornal entregue, programando o final de semana com amigos em Carlópolis, descubro que não mais poderei estudar na Fanorpi.


Segundo ato
A decisão é imediata: vou para Ponta Grossa. Não tinha outra alternativa. Mas a matrícula é na segunda-feira de manhã e não tenho nenhum dos documentos exigidos. E agora? Vamos correr! No final, depois de inúmeras dificuldades (xerox quebradoS, cartório cheio, histórico errado, secretária de férias etc) conseguimos tudo. Mas nem eu, nem meu pai, nem minha mãe nunca fomos a Ponta Grossa, não conhecemos nada lá. Google Maps e fé em Deus!!! Mais uma vez, tudo certo. Mas não tenho lugar pra morar em Ponta Grossa. Vamos passar o dia todo andando (completamente perdidos) pela cidade pra achar uma casa/kitinete/apartamento. E, para finalizar, tudo certo.


Terceiro ato
Agora é se despedir das pessoas, aproveitar os últimos dias na Cidade Joia, preparar a mudança e ir. Ir conhecer novas pessoas, novos modos de ver o mundo, nova cidade, nova forma de viver. Tudo começaria novamente. Só que agora sem a proteção das duas pessoas mais importantes na minha vida: meus pais. Mais de 17 anos com eles ali ao meu lado todos os dias, aconselhando, protegendo, brigando, amando! E agora? Como vai ser? O que vou encontrar? E se não der certo? Será que vou conseguir? É triste ter que dar tchau pra tanta gente, ver meus avós chorarem, acompanhar todos os traços da sua cidade a cada quarteirão em direção à rodovia que te leva pra outro mundo. Tentei ver e ouvir tudo com mais atenção e guardar dentro de mim pra poder me lembrar quando estiver longe. Meu quarto, minha casa, a vila, a Igreja Matriz, a praça, o Centro, o Calçadão novo e feio, a lembrança do Calçadão bossa-nova, a casa antiga dos meus avós, o Morro do Bim e o Cristo lá em cima, as casas, as lojas, a placa da entrada da cidade. E chega a estrada. Longa e triste estrada. A sensação de solidão já chegou, mesmo ainda acompanhado dos meus pais. As lágrimas chegam também, mas não caem. Não podem cair ali, do lado dos meus herois. Silêncio.


Quarto ato
Chegamos na nova cidade velha. Tirar todas as coisas do carro dá trabalho. E arrumar tudo em casa então? Nem me fale! Tento deixar tudo meio prático, mas organizado. "Meu jeito" está presente na arrumação. Pronto, acho que terminamos né. Chegou a hora? Mas já? Fiquem mais um pouco, tá cedo ainda! Não dá? Está bem, entendo. Tchau. Cuida da mãe. Cuida do pai. Vou ficar bem. Obrigado por tudo. Amo vocês!


Quinto ato
Quanta gente nova!!! Ponta Grossa, Curitiba, Foz do Iguaçu, Mafra, Telêmaco Borba, Cascavel, Castro, São Paulo, Ibaiti, Lapa, Caçador, Apucarana, Irati, Ivaí... Que animação! "Jornalismo é tudo. E tudo ao mesmo tempo é nada". Ahn?! Na primeira aula já começamos bem. O professor já assustando a muitos com suas teses do que é e do que não é jornalismo. Apresentação, o que viríamos no curso, recomendações, instruções sobre a Universidade etc. O difícil no início é saber com quem conversar, onde ir, o que fazer. E aí vem o trote. De manhã na sala, com apresentação e um mico básico. À tarde, no bar. Sem comentários. Próximooo...


Sexto ato
E os dias passam. E a gente conhece as pessoas. E a cidade vai parecendo menos complicada. Mas eu percebo que tem que limpar a casa, a roupa não vai ser lavada por ninguém, o lixo não vai lá fora sozinho, a louça não se lava automaticamente. Acho que a vida começou! Agora tudo depende de mim (a não ser quando minha mãe tem que depositar dinheiro no banco né). Já achei meu grupo, meus novos amigos. E como são legais! Passo o dia rindo com eles, me divertindo. Nas aulas, nos intervalos, no R.U., no MSN, nas horas vagas... Pelo jeito esses quatro anos serão inesquecíveis. E o Jornalismo me fascina a cada dia. Visita à RPC, aulas sensacionais de foto (as práticas, claro!), Escola de Governo, Episódio Zeca. Até os inúmero textos me encantam (exceto os de Teorias da Comunicação e Sociologia da Comunicação). E as aulas? Debates acalorados, conhecimentos inesperados, episódios engraçados, olhos amarrados, professores aloprados alunos amontoados, todos rimados (há!). A diversidade mostra sua face e surgem as fofocas, os preconceitos, os pré conceitos, as "discussões". E a vida acadêmica fora de casa segue, um dia após o outro prometendo ser inesquecível, porém as dificuldades que apareceram desde o início não vão acabar. Já voltei algumas vezes pra casa e vi que o cotidiano da minha amada cidadezinha do interior continua, mas parece não ser a mesma de dois meses atrás. Agora faço turismo lá, visito meus pais, meus amigos, hospedo na casa que vivi por 17 anos. Escrevendo agora sinto uma saudade imensa de SAP. Mas, como disse o Jean em seu blog, se volto pra minha cidade, "ao esconder da segunda lua provavelmente estarei louco de saudades da minha liberdade pontagrossense".

Sétimo ato
?????

sábado, 10 de abril de 2010

Vida e morte: inevitáveis!

Acabei de ver um trecho do último capítulo da novela Cama de Gato, da TV Globo. Não que eu gostei e acompanhei a obra. Só estava mudando de canal e vi. Porém, esse pedaço que assisti me chamou muito a atenção. O “mocinho”, jovem, já doente, prevê que está chegando a hora de sua morte. Chama então seus três melhores amigos para se despedir. A comoção é geral entre todos. Porém, comoções diferentes. A mulher que o amava (com um sentido diferente de amor de amigo) chora pela perda de seu companheiro. A mulher que o jovem amava (com o mesmo sentido anterior) apenas se despede e deseja que Deus cuide dele. E o amigo de infância, que, depois de muitas brigas, consegue perdoá-lo por uma brincadeira, tenta falsear aquele momento e prolongar a vida do amigo. Entretanto, o jovem prestes a morrer apenas se despede. Podem-se notar no semblante dele sua calma, conformidade e alegria por ter aquelas três pessoas ali, ao seu lado. O momento mais aguardado da vida de qualquer pessoa chegou para ele: sua morte. A hora de ver o que nenhum ser vivente conhece, ou seja, o que há depois do fim. O que há depois do fim?





É tão difícil escrever sobre algo que não se conhece, se é que existe de fato. E por ser tão difícil e desconhecido é que se torna um mistério que levamos durante todo o tempo em que existimos aqui neste mundo. Quem nunca de deparou pensando em como será depois que partirmos daqui? É próprio do ser humano querer saber o que vai acontecer amanhã, semana que vem, no próximo ano, depois da morte. Necessitamos ter um cronograma de nossas vidas, mesmo sendo ele totalmente mutável. Amanhã vou estudar, semana que vem vou numa festa, no próximo ano vou comprar um carro, depois da morte vou... Não, eu não sei o que vou fazer quando morrer. É imprevisível e misterioso este momento.


Cada um de nós é como um livro, que guarda seu início, seu meio e seu fim.”


Mas voltando aos quatro amigos, vemos o quanto é importante o que fazemos a cada dia. Nosso comportamento, nossos ideais, nosso modo de viver, nossa terra, tudo é condicionante das pessoas que teremos ao nosso lado. O “início” é marcado pelos pais e pela família. No “meio” são os amigos (e muitas vezes os pais e a família também!) e a sociedade o ideal que buscamos. E o fim, parafraseando um professor meu, “é tudo. E sendo tudo é ao mesmo tempo nada.” É no fim que saberemos se o que foi feito durante tantos anos valeu a pena. Baterá naqueles que não souberam aproveitar a vida a sensação de arrependimento, tristeza e dor. A única chance foi desperdiçada.

Alguns podem achar feio eu estar escrevendo isso (se é que alguém vai ler), mas a morte é inevitável, infelizmente. Assim como a vida! Por isso quero viver intensamente, e não apenas sobreviver a cada dia. E no fim olhar pra trás e ver como foi bom! Quero morrer feliz.




P.S.: Não houve jeito de evitar os clichês!

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Liberdade de expressão sim; ofensas não!

Programa RP2, da TV Vila Velha, é apresentado pelo "repórter-policial" Zeca. (Reprodução)



Um caso lamentável chocou os jornalistas (formados!), estudantes de Jornalismo e a sociedade brasileira esta semana. O apresentador do programa policial RP2, da TV Vila Velha de Ponta Grossa - PR, ameaçou e ofendeu moralmente um aluno e sua família ao vivo em seu programa devido a um artigo escrito no blog Crítica de Ponta, atualizado pelos alunos do 2º ano de Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) com críticas sobre a mídia regional e nacional para uma disciplina do curso. No artigo, com o título “Um exemplo a NÃO ser seguido”, o estudante escreve, principalmente, que o programa usa do sensacionalismo para chocar os telespectadores e conseguir aumentar seu índice de audiência. Porém, o texto é escrito sem agredir ao público do programa ou aos seus produtores. Entretanto, o apresentador e “repórter-policial” Zeca, viu essa crítica como pessoal. Aí vieram os xingamentos, as ameaças e as ofensas, não só ao aluno, mas também à sua família, ao curso, à classe e à Universidade.

O foco principal agora não é se o apresentador ou o estudante tem razão, ou o tipo de “jornalismo” que o RP2 faz. O que deve ser discutido é a liberdade de expressão. Não se pode mais opinar sobre algo que te chame a atenção? Uma crítica não é sinônima de ofensa. O que o estudante fez não foi insultar alguém, e sim dizer o que ele pensa sobre a forma como o programa é produzido e levado às casas dos assinantes desse canal de TV. O apresentador tem todo o direito de criticar a crítica, mas da mesma forma feita pelo aluno: civilizadamente. A liberdade de expressão é o suporte vital para a democracia, e deve ser feita com respeito. Como exigir que a soberania popular exista na sociedade se quem a faz não pode sequer apreciar sobre um simples programa televisivo ou se ofende com a opinião alheia, atacando o crítico? Se todos seguissem esse exemplo, a sociedade viraria um verdadeiro campo de batalhas, com afrontas de todos os lados. Seriam todos contra todos.

A censura é erguida com atos como o desse caso, pois dão respaldo ao fechamento do debate e sua repreensão. Ela suprime ações da comunicação de tal forma que o pensamento é monopolizado, não aceitando qualquer outra opinião.

O verdadeiro jornalista não censura! Ele sabe que a diversidade de ideias e ideais é que faz com que o coletivo evolua. Porém, isso dificilmente é aprendido fora de uma universidade, pois não é difundido na sociedade como deveria ser. São esses “jornalistas” que Vossas Excelências ministros do Supremo Tribunal Federal queriam?

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Chega logo 2010!

Final de ano, época de balanços e promessas. Também quero fazer isso. O local é aqui e o momento é agora. Para começar, um trecho de uma música que acabei de ouvir: "Este ano quero paz no meu coração". Bom, acho que resumi tudo o quero para 2010. Fim.

Nããããão!!!! Vamos fazer direito.

2009 não foi lá aquelas coisas né, mas.... fazer o que? O jeito é seguir em frente. Começamos com crise econômica, gripe do porco, mudança no Enem, fraude do Enem. Pra melhorar foi meu ano de vestibulares. Tensão e cobrança na escola. Junta-se a isso um pouco de ansiedade e a saudade antecipada dos meus amigos, que praticamente todos irão se separar. Uma pitada de tristeza no amor (e que pitada!) e está feito um dos piores anos.

Mas por outro lado, 2009 foi o ano em que eu me decidi pelo Jornalismo. E isso é bom! Consegui um emprego bom, com o que eu quero. Fiz boas amizades na área, que acho que poderão me ajudar muito daqui pra frente (espero!). Descobri uma coisa muito importante sobre meu passado. Descobri que tenho uma irmã. Mas não sei quem é, onde mora, o que faz. Ainda.

Li bastante. Ri bastante. Cantei. Dancei. Me diverti. Fotografei. Beijei. Amei. Aconselhei. Rezei. Orei. Chorei. Me emocionei. Me despreocupei. Escrevi. Passeei. Fui em shows. Fiz teatro. Estive com meus amigos e aproveitei ao máximo. Disse a meus pais o quanto eu os amo. Abracei quase todos meus amigos e minha família.

Tá bom: não foi um ano tããão ruim assim. Mas não foi dos melhores não. Enfim, espero que 2010 seja melhor que 2009 e pronto.

O que eu espero para 2010? Sendo bem objetivo: que o curso de Jornalismo seja legal e eu goste, que eu encontre alguém pra amar, que minha família continue sempre unida, que eu cresça no meu trabalho e na minha área, que eu faça novos amigos e continue com os que já tenho. Só. Fácil, né?

Como as coisas mudam de um ano para outro, não? 2008 estava tudo diferente. 2009 (2000inove) as coisas mudaram de novo. E 2010 já promete muito mais mudanças. Então, que venha logo 2010, ano em que não podemos fazer trocadilho com os números, mas que espero ser realmente o das inovações!

Feliz Ano Novo!

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Natal?

Qual o verdadeiro sentido do Natal? Parece clichê, mas mesmo assim ultimamente as pessoas não estão nem ligando pra isso. Não se fazem mais Natais como antigamente.

Eu estava em uma "ceia" agora há pouco. E fiquei pensando: com todo esse espírito de Natal, nascimento de Jesus e tal, como a gente pode se preocupar tanto com a quantidade e a variedade de carne que vamos comer??? A gente (digo "a gente" porque, mesmo não sendo nós os assassinos primários, somos nós que comemos) mata animais para poder comê-los na noite de Natal! Não deveria ser ao contrário? Uma noite de relação com a natureza que Deus fez e etc? Mas não. Nos deliciamos com o corpo de outros seres vivos. Jesus veio para salvar só os seres humanos ou toda a criação de Seu Pai??? Agora fiquei mais intrigado ainda!

Mas voltando ao espírito de Natal. Eu disse que não se fazem mais Natais como antigamente. Parece que a cada ano que passa, essa época vai ficando cada vez mais reduzida e "normal". Ontem que fui perceber que já era dia 23 de dezembro! As crianças não ligam mais tanto pra essa época. Só pensam nos presentes (e que presentes!!!)

Amanhã já até imagino como vai ser: bebedeira, comilança, falação das vidas alheias, etc etc etc. Família??? Sem comentários.

Estava assistindo ao final da Missa do Galo, direto do Vaticano. Pra quê tantas regras??? Por que eles fazem uma missa só para ricos??? Pra mim, o mais importante é compreender que estamos comemorando o nascimento de Jesus, que nasceu para morrer para nos salvar!!! Eu acho que Ele não gostaria de ver isso do jeito que é, no que se transformou. Tanto glamour, tantas regras, tantos bens materiais dentro da Sua Igreja. Enquanto isso muitas pessoas do lado de fora passando frio e fome.

Estou um pouco desacreditado em Natal. Feliz aniversário Jesus!

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

ESC

Às vezes é tão difícil terminar algo. Dar um ESC nas conversas, nos sonhos, nos encantos, no amor. Não é nada fácil. Sou do tipo de me apaixonar, não de "pegar". E quando realmente uma pessoa se apaixona, o fim se torna o momento mais angustiante. O amor verdadeiro demora para ir embora, dar um adeus definitivo, fechar a porta do coração para aquela paixão.

Quando a gente acha que acabou, vem uma nova conversa sutil, no horário que era de costume, com os mesmos assuntos de antes, com a música que sempre tocava... E a gente vê quão grave foi o erro cometido e que fez com que tudo que era bom terminasse. A saudade fala alto, grita que quer aqueles momentos novamente. Por que não podemos voltar atrás e consertar o que foi feito errado?

Amo amar, odeio ter que parar de amar! Que saudade de quando eu escrevia "eu te amo" quando o assunto acabava e ficava aquela lacuna de espaço para o próximo. Agora, o boa noite é apenas um boa noite. "Que amor era esse que não saiu do chão?"

Alguns cantores falam por mim. Por exemplo, agora, escutando Pouca Vogal (logo eles?): "A lembrança sempre vem numa noite sem luar".

domingo, 1 de novembro de 2009

O começo do fim e do recomeço



Primeiro dia do mês de novembro. Olhando o calendário, vejo que faltam apenas dois meses para o Ano Novo, 55 dias para o Natal, 50 dias para o PSS da UEPG, 43 dias para o Natal de Luz, 42 dias para a segunda fase da UFPR, 35 dias para o Enem, 29 dias para a primeira fase da UFPR, 25 dias para o final das aulas.

Final das aulas. Isso está mexendo um pouco comigo. É o final de um ciclo de 11 anos. A partir de agora não será mais escola, será faculdade. É outra coisa... Além disso tem os amigos né. Não só os amigos da sala, mas também os professores legais e a equipe do colégio. Esses 25 dias que faltam serão de "últimos". Última prova de cada matéria, última tarefa, últimos encontros, últimos risos juntos, últimos micos, últimas fotos, últimos intervalos, últimos cochilos na carteira...

Mas, como sempre, tudo que acaba é o início para uma nova fase. E é essa nova fase que está me deixando preocupado. Principalmente este final de semana. O final de semana da decisão. Ir ou ficar? É isso que eu tenho que responder a mim mesmo e depois comunicar aos que estão a minha volta. Quando comecei a escrever esse blog tinha a certeza de que iria embora fazer faculdade em Curitiba ou Ponta Grossa. Hoje já está diferente. Comecei a colocar na balança os pontos positivos e os negativos de ir e de ficar. Os pontos positivos de ficar ganharam. Trabalho fixo, oportunidades a curto prazo, oportunidades a longo prazo, gastos extremamentes menores e, principalmente, família mais tranquila (em todos os sentidos). Desde quinta-feira não estou conseguindo dormir por ficar pensando tanto nisso.

Como o tempo passa rápido, não é?

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Quem?

A falta de memória pode nos atacar a qualquer momento. Isso é normal do ser humano. Uma hora ou outra isso vai assombrar a todos, seja um esquecimento sutil ou uma daquelas histórias inesquecíveis. Como do cara que encontrou com uma pessoa na rua e não se lembrava do nome do possível amigo. Ele tenta de todas as formas se lembrar e não consegue. No final, o "amigo" se despede e chama-o por outro nome, deixando evidente que o mal entendido foi criado pois eles realmente não se conheciam.

Nosso cérebro às vezes nos prega essas peças. E, em algumas delas, pode ser sério. O esquecimento pode atrapalhar um relacionamento, o trabalho, a escola, os amigos. A data do início do namoro, um telefonema que esqueceu de avisar o chefe, uma tarefa que esqueceu de fazer, uma festa que esqueceu de chamar alguém às vezes se torna o motivo para tomada de certas atitudes, acarretando em consequências não muito legais. Mas pode se tornar engraçado também, dependendo da forma como é tratado.

Com o avanço da idade, o esquecimento é cada vez mais normal. Ultimamente estou vivenciando isso de perto. Minha avó já começa a apresentar os sinais do tempo. É normal ela me chamar pelo nome de meu primo e vice-versa. Esses dias fui visitá-la e, não para minha surpresa, ela já chegou trocando meu nome. E conversa vai, conversa vem, e não tinha uma vez que ela acertava. O pior: ela perguntava as coisas que deveriam ser endereçadas a meu primo. Como vai a faculdade? E o escritório do seu pai? Você trocou a moto? Era impressionante. Eu não faço faculdade ainda, não é meu pai que tem um escritório e sim o meu tio, e não tenho Carteira de Habilitação para ter uma moto. Mas respondia isso tudo educadamente. Afinal, não é por querer que ela faz isso. Eis que chega meu primo. E, agora, era ele quem se via na frente da parede com as perguntas que deveriam ser feitas a mim. No final saimos de lá acreditando que um era outro e o outro era um. Aliás, quem sou eu mesmo?





P.S.: Esta crônica foi escrita para uma atividade da escola, portanto alguns fatos não representam a realidade. Vó: te amo!