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sábado, 19 de março de 2011

Em vez da capa, o capacete

Ao abrir uma revista ou ligar a televisão somos inundados de heróis e mais heróis criados pela mídia, forçando uma falsa identificação com o povo brasileiro. Vão desde BBB’s a cantores de qualidade discutível. Estes chegam e partem sem a gente se dar conta e são atualizados constantemente, como uma forma de revezamento do posto de herói nacional.

Porém, há um tipo de ‘super-homem’ que não sai da moda nos noticiários, principalmente em época de enchentes, deslizamentos, terremotos, tsunamis e outros males geológicos: o bombeiro. Diferente dos outros que eu citei, este tem uma razão sociológica para existir e ser idolatrado. Vale lembrar as últimas catástrofes naturais que colocaram os bombeiros à vista do público brasileiro. Vamos fazer um recorte, pegando apenas tragédias decorrentes de fortes chuvas. Em 2008 foi o Vale do Itajaí (SC); em 2009, os estados do Norte e Nordeste; em 2010 tivemos em Angra dos Reis (RJ), São Luiz do Paraitinga (SP) e Tomazina (PR); em 2011 foi a Região Serrana do Rio de Janeiro, a cidade de São Paulo e Morretes e Antonina, no Paraná. Em todos estes acontecimentos, a figura do bombeiro sempre esteve presente.

Eu e você vimos imagens, fotos e relatos de salvamentos realizados por esses heróis, colocando-os em status de redentores. Em pesquisas sobre a confiabilidade dos cidadãos em instituições, os bombeiros sempre aparecem nas primeiras colocações. Resultado da grande propaganda feita pela mídia gratuitamente a este grupo, responsável pelas cenas emocionantes que assistimos. Heróis nacionais, que aparecem para resgatar não só mocinhas e crianças em perigo, mas a todo um povo que chora diante da tragédia.


Texto: Eduardo Godoy

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

A vida nas filas

A fila é grande. Nela estão crianças, jovens, adultos e idosos. A grande maioria é de idosos. A manhã quente fica ainda mais cansativa nessa situação. Em pé, encostados no corrimão, os pacientes do Hospital de Olhos do Norte Pioneiro, em Jacarezinho, esperam pelo atendimento e, claro, por uma boa dose de sorte. Muitos estão ali desde às seis horas da manhã. Já são quase nove e a fila continua longa e demorada.

Enquanto espera, uma senhora morena, aparentando 40 anos, lê a Folha Universal. Observo. Ela me olha friamente e logo ataca: “Os jovens de hoje precisam de Deus. Necessitam de um caminho. Você não acha?” Respondo positivamente com a cabeça. Ela abaixa o rosto e continua lendo. Logo a minha frente dois senhores conversam. É uma daquelas conversas que os jovens deveriam prestar atenção. Um deles, sempre que termina de contar um ‘causo’, afirma com muita ênfase: “Viu, mais é verdade mesmo, eu num tinha porquê menti”.

O sol vai subindo no horizonte. Enquanto isso a fila continua parada. Outro senhor, de cabelos brancos, vestindo uma calça boca larga, estilo anos 70, e uma camisa social surrada, se aproxima com duas caixas térmicas cheias de salgados. A fila grande e demorada é bom sinal para ele, só pra ele. Chega. Aconchega-se no único banco livre e apóia as caixas. Tira do bolso uma sacola cheia de moedas; outra sacola com guardanapos e ainda outra sacola com o pente e objetos pessoais. Logo as pessoas vão se aproximando. Na medida em que vende os lanches, a R$ 1,30 cada, o cheiro dos quitutes toma conta da fila e todos se curvam para saborear com os olhos, e alguns com a boca. O senhor exibe um sorriso constante, verdade que desfalcado por dois dentes na parte superior, mas mesmo assim constante e alegre.

A fila continua da mesma maneira: estática e sonolenta. Desde que cheguei, há cerca de 40 minutos, andei uns três passos para frente, não mais que isso. A monotonia é quebrada por um rapaz que passa ao lado da fila, de cabeça baixa e com alguém segurando suas mãos. Uma mulher vem apressada logo atrás, falando nervosamente ao celular. Os cochichos começam. Não consigo ouvir nenhum nitidamente. Só noto a expressão da senhora que ainda lê a Folha Universal. Ela fecha o semblante e faz um sinal negativo com a cabeça. Quando o rapaz retorna, dessa vez de frente para os que estão na fila, os olhares de reprovação são ainda maiores. Ele é um presidiário da Casa de Detenção da cidade. Para os que estão na fila, ele é apenas um marginal. Para o 'sistema', ele é apenas mais um número. Os senhores comentam entre si. “Se tivesse um lote pra carpir não tinha feito coisa errada e não taria nessa vida”, justifica um deles com feições orientais e mãos calejadas.

A fila não continua a mesma, agora é alguns metros mais extensa. O senhor dos salgados já não está mais lá. Vendeu todos os lanches que cabiam na caixa e foi até sua casa renovar o estoque. Alguns o aguardam ansiosamente. Já faz mais de uma hora que estou quase que no mesmo lugar, parado e observando toda aquela atmosfera confusa e interessante. Uma senhora conta a história de sua mãe. Ela já esteve lá, acompanhando a mãe, duas vezes, essa é a terceira. Indignada com a situação de demora e descaso, esbraveja e vai até à recepção. Volta de lá vermelha e logo berra: “Dois médicos não vieram hoje, não sabe se vai ser todo mundo atendido”. Os burburinhos crescem. Pessoas começam a chorar. Alguns dizer do dia de serviço perdido e outras do dinheiro gasto com a viagem. Para diminuir a tensão, um senhor fuma um daqueles cigarros de palha. Decido me retirar, afinal, até Ibaiti ainda são 90 quilômetros e algumas curvas. Antes disso fico imaginando como será o fim do dia de cada uma daquelas pessoas. Quem vai conseguir uma consulta de cinco minutos? Quem vai perder a viagem? O pior é ter a certeza de que amanhã aquela fila estará lá novamente, do mesmo jeito ou até maior. A única coisa que muda são as pessoas que a compõem. Porque o serviço público continua deficiente e cada vez pior.

Texto: Afonso Verner
Foto: Latuff (imagem meramente ilustrativa)

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

(des)Respeito ao passado

Durante 2010 comecei a perceber a desvalorização empenhada em prédios históricos. Prédios que revelam não só a arquitetura de uma época, mas trazem histórias escondidas em seus tijolos de barro artesanais e janelas de madeira. São resquícios da história local, de uma cultura retratada e localizada ao longo dos anos nas paredes descascadas de bibliotecas, cinemas, casas de comércio, bares e lares. E, depois de tanto tempo carregando as emoções humanas em forma de prédio, vão abaixo para dar lugar ao desenvolvimento desmedido e malvado. Tal desenvolvimento que se esquece do passado, relegando-o às fotografias em preto e branco. O filho desenvolvimento manda seu pai passado para o asilo do lixão, sem ouvir suas aventuras joviais, seus amigos e sentimentos. As lágrimas do prédio caem pelo encanamento da cozinha.

Antiga Biblioteca; futuro entulho

A foto acima, tirada na tarde de hoje, 11, é, talvez, uma das últimas imagens de mais um prédio que está morrendo em Santo Antônio da Platina. A casa, na rua Rui Barbosa, abrigou, durante anos, a Biblioteca Municipal José de Alencar. É (ou era) uma das últimas casas antigas no centro da cidade, tomada pelo comércio que vem se revitalizando nos últimos anos e enchendo as fachadas de placas e mais placas.

A Biblioteca foi alvo de uma matéria minha em 2008 devido aos problemas estruturais e administrativos. Chovia nas dezenas de livros armanezados em prateleiras que poderiam cair a qualquer minuto. Vi a situação pelas janelas, entreabertas, já que fui duas vezes ao local e não havia funcionário. Na terceira vez consegui conversar com um atendente, que informou que não poderia responder pelos problemas estruturais e a ausência de atendimento se devia à falta de funcionários da prefeitura.

Saí da Biblioteca e fui ao gabinete do Chefe do Departamento de Cultura, órgão integrante da Secretaria de Educação e Cultura. Dr. Neno Bartholomei disse que uma reforma era realmente necessária e iria sair, porém, sem data prevista. Sobre a falta de funcionários, resolveu na hora. Telefonou ao responsável, que disse estar de atestado médico. Acredite quem quiser... Em 2009 outros meios da imprensa local denunciaram a situação da Biblioteca Municipal, que foi transferida para uma recém-terminada ‘sala de comércio’, sem nenhuma característica que lembrasse um prédio cultural. Os livros foram salvos, mas o marco da cultura local, necessitada apenas de uma reforma, agora está indo abaixo.

Ao lado da demolição já é possível ver outro grande terreno, talvez do mesmo dono, com a terraplanagem pronta para se incorporar à área ‘limpa’. Possivelmente será construído mais um grande prédio para abrigar um comércio. Enquanto isso, a Casa da Cultura Platinense está fechada, esperando a prometida reforma; o prédio da antiga Casa Carvalho foi transformado em uma rosada lojinha de bijouterias; o velho Foto Tanko está dando lugar a outro ponto de comércio; a Casa das Meias morreu e em seu lugar levantaram duas lojas; o Calçadão Manoel Arrabaça Ribeirete, que eu chamava carinhosamente de ‘Calçadão Bossa-Nova’, foi transformado em uma mescla de cores estranhas, com pequenos espaços (das mesmas cores) para comércio de lanches e com postes de luzes horríveis; a praça São Benedito foi tomada por prédios públicos, inclusive uma Biblioteca Cidadã, do Governo Estadual, com arquitetura ‘sem-sal’; e a praça Frei Cristóvão Capinzal está às escuras, também aguardando a prometida reforma, principalmente no coreto (por mim tirava-o e colocava o antigo chafariz, muito mais bonito).

Os tijolos de barro artesanais e as janelas de madeira estão caindo. Com elas, o passado platinense, a história de uma cidade quase centenária e a cultura arraigada nos pisos e assoalhos de nossos antigos lares.


Texto: Eduardo Godoy
Foto: Eduardo Godoy

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

A pipa do meu vô não sobe mais

Meu vô é mestre em pipas. Pipas, ou papagaios, como queiram. Eu prefiro chamar de pipa. Pois bem, meu avô é expert na arte de construir pipas. Pipas que rasgam o céu azul de Santo Antônio da Platina, voando levemente com a brisa das férias. Minha maior lembrança da infância é ver meu vô vendendo pipas e jujóias (ou saquinhos, ou sacolés) nas tardes quentes do verão platinense.

Eu passava horas e mais horas na casa da minha vó durante as férias. Às vezes meu primo também ia. Nos dias mais animados, brincávamos com os vizinhos em um terreno abandonado ali do lado. Fazíamos caça ao tesouro, que não passava de uma latinha ou qualquer outro objeto que achávamos. Ou simplesmente ficávamos conversando sentados nas ruínas do que um dia tinha sido uma casa, enquanto tentávamos destruir as pequenas paredes que ainda estavam em pé. Os tijolos mais antigos são mais resistentes!

Em outros dias, outros tempos, brincávamos de carrinho de rolemã na rua da casa da minha vó, íngreme e não tão movimentada como hoje. Lembro de minha vó gritando pra gente brincar na calçada. Eu não gostava da calçada: me fez arrancar uma lasca da ponta do dedão do pé em uma descida mal planejada pelos co-pilotos. O freio falhou e eu estava de chinelo. Ou eu parava com meu pé na calçada de cimento ou ia direto para a rua e um buraco do outro lado, correndo o risco ainda de ser atropelado. Fiquei com a primeira opção.

Bom, mas voltando às pipas, dizia que meu vô é mestre nessa arte. Nas férias, vendia cerca de 10 a 15 por dia! Os garotos deviam me invejar por não ter que pagar minha pipa e ainda poder escolher a cor e o tamanho da rabiola (a cauda, feita com tiras de sacolas de plástico). E ainda tinha jujoia de graça! Qualquer sabor, a qualquer hora. Era a infância perfeita na casa da minha vó.

Hoje meu vô não constroi mais pipas com a agilidade de antigamente. Não que sua técnica tenha sido esquecida ou seus movimentos tenham ficado menos ágeis. É que não precisa mais atender a tanta demanda. Vende uma, ou duas, por semana. Segundo minha vó, os garotos aprenderam a fazer pipa. Não precisam mais comprar. O papel encontra em qualquer papelaria, com inúmeros desenhos, de todos os tipos e cores. O bambu é fácil de achar no supermercado ou em lojas de produtos rurais. Tudo ficou muito fácil. E meu vô não vende mais pipas. Mas eu garanto que nenhum desses garotos conhece a arte de construir pipas. Só sabem fazer. Isso até eu sei. Mas construir mesmo, com toda a engenharia milimétrica, rústica e apurada, é só com meu vô. Eles não sabem o que estão perdendo!

Texto: Eduardo Godoy

sábado, 18 de dezembro de 2010

Rock in Rio: brasileiro até que medida?

Platéia na Cidade do Rock - Rock in Rio 2010 Lisboa



por Afonso Verner

Depois de anos longe, o Rock in Rio voltou à terra tupiniquim. A última edição no Brasil (2001) teve atrações internacionais como Iron Maiden, Foo Figthers, Guns N' Roses e Red Hot Chili Peppers. Na edição de 2011 o festival promete agradar com os shows já confirmados das bandas ‘gringas’ Coldplay, Motorhead, Snow Patrol e Metallica. Mas, em termos de atrações nacionais, o Rock in Rio 2011 deixa a desejar.

Na sua primeira edição (1985), o Rock in Rio teve na programação artistas principiantes no cenário musical brasileiro - como Lulu Santos, Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho e Kid Abelha - que depois se tornaram referência para as próximas gerações. Na edição seguinte (1991) a organização continuou a acertar na escolha dos shows nacionais e internacionais. Dentre os gringos que subiram ao palco estavam Jimmy Cliff e Judas Priest; os brasileiros foram bem representados por Engenheiros do Hawaii, Titãs, Roupa Nova, Sepultura, Inimigos do Rei, Lobão, Paulo Ricardo, Capital Inicial, Léo Jaime e Nenhum de Nós. Em 2001 o destaque internacional foi para o Iron Maiden; já nesta edição notava-se a queda das atrações nacionais; nesse ano o destaque era Cássia Eller, que estava no auge da sua carreira. Antes divido entre três ou quatro artistas, agora o peso de atração principal do Rock nacional recaía apenas sobre a cantora.

Desde então o cenário nacional ficou estagnado. No festival de 2011 as atrações, legitimamente brasileiras, são quase todas remanescentes da década de 90 e até de 80; como Skank, Capital Inicial, Sepultura e Angra; fato que reflete a baixa produtividade do Rock Nacional nos últimos anos. A única exceção é a cantora Pitty, que participou da gravação do ‘jingle’ do Festival. A baiana de 33 anos lançou seu primeiro CD no ano de 2003 e participou do Rock In Rio Lisboa (2004), além de ter gravado ao lado de lendas do Rock Nacional, como no Acústico MTV da Banda Ira.

Contudo, apenas um artista em dez anos é muito pouco para o cenário roqueiro nacional. A escassez de atrações brasileiras, vindas da nova safra, na programação do Festival não é culpa ou escolha da organização. Parece mais com um conjunto de fatores, que envolve o público, meios de comunicação e as grandes gravadoras. O país tem sofrido uma invasão de ‘roqueiros’ que vestem colorido e falam de ‘amor adolescente’; o Rock politizado tem perdido espaço e se retido aos porões, cada vez menos freqüentados. Não é meu intuito entrar no mérito de isso é bom ou aquilo é ruim, mas desde a virada do milênio o Brasil perece de Bandas de Rock.

As últimas bandas aclamadas pela mídia e pelo público são do final da década de 90 e parte delas já se desfez. O Raimundos praticamente acabou depois da saída do vocalista Rodolfo Abrantes. Hoje o grupo voltou à estaca zero, atuando quase como uma banda independente. Rodolfo montou o Rodox, banda formada por músicos já rodados na cena, como o baterista Fernando Schaefer (ex-Pavilhão 9 e Korzus) e o guitarrista Patrick Laplan (atual Eskimo, ex-Biquini Cavadão e Los Hermanos). O grupo propôs um som pesado, intitulado por alguns como Hardcore Cristão, porém que não durou muito: em menos de dois anos o Rodox se desfez com uma briga em pleno show. O Charlie Brown Junior passou pela situação inversa: apenas o vocalista permaneceu e todos os outros integrantes deixaram o projeto. Chorão recrutou novos membros e continuou o trabalho, mas a banda nunca mais foi a mesma e o seu som mudou consideravelmente. Champignon assumiu o baixo da banda Nove Mil Anjos, formada também por Peu Sousa (guitarrista, ex-Pitty), Junior Lima (baterista, ex-Sandy & Junior) e Péricles Carpigiani (vocalista, ex-Fuga). O grupo logo ganhou destaque na mídia, já que os integrantes tinham fama individual anteriormente, porém esse sucesso não se repetiu com o Nove Mil Anjos, que não agradou nem publico nem crítica. Outras bandas como Tihuana, Detonautas, Matanza, Dead Fish, CPM 22 (deixando de citar várias outras) não renderam o que os críticos e o público esperavam e acabaram por ocupar um lugar secundário na mídia.

Se a descoberta de novas bandas virá em tempo ou não, aí é uma questão que foge do nosso controle. Mas a constatação de que o país anfitrião do Festival não terá a representação devida nos palcos é algo preocupante. Porém, é prepotência imaginar que o Brasil não tem bandas competentes o bastante para representá-lo bem. Basta imaginar que essas bandas estão por aí, perdidas em algum barzinho ou porão, sem ter o espaço midiático merecido. O que resta é descobri-las.

Texto: Afonso Verner
Foto: Agência Zero - http://www.flickr.com/photos/rockinrio/5126621811/

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Olhos sonhadores


Milhares de pessoas passam por nossas vidas. Porém, algumas têm o poder de nos marcar, como uma cicatriz interior. Um momento eternizado não em nosso corpo, mas sim em nossa alma.

Francesco tinha a certeza de que conhecera aquela mulher. A imagem da juíza da Vara da Criança e do Adolescente, responsável pelo caminho de dezenas de pequenas criaturas sem uma vida familiar consistente, não lhe era estranha. Drª. Lorenza respondia às perguntas do jornalista com um ar sério. O entrevistador, entretanto, fitava aqueles olhos profundos tentando se lembrar de onde os conheciam.

Vinte e dois anos antes, em uma agitada madrugada de sábado. Era isso! Os olhos sonhadores, lembrou-se. A noite não devia ter sido boa, imaginava ele observando o suporte de algodão doce, ainda cheio, que a menina de 16 anos trazia junto ao braço. No drive-thru de uma rede de lanchonetes, em meio aos pedidos dos amigos, a adolescente chegou e ofereceu seu produto, simples, genuíno, bem diferente dos pequenos sanduíches vendidos a preços exorbitantes pela rede. “O azul tem mais sabor. Eu já experimentei todos, mas agora já enjoei”, revelou a pequena vendedora.

O ainda estudante de jornalismo aceitou um algodão doce. Ou melhor, comprou um algodão doce. E puxou conversa, enquanto seus amigos decidiam se pegavam batatinhas fritas e Coca-cola, junto com o lanche. Ele descobriu que a menina estudava de manhã (tinha repetido de ano três vezes, por isso ainda estava na 7ª série), cuidava dos sobrinhos à tarde e vendia algodão doce à noite. Tripla jornada, que começava quando ela acordava olhando para o suporte do produto enroscado em cima da sua cama. O estudante ficou imaginando como era acordar desta maneira. E como ela enroscava um troço daquele em cima da cama?

Bom, mas ele lembrou-se dela pelo sonho revelado naquela noite: estudar Direito e ser juíza da Vara da Criança e do Adolescente. “Já passei por lá várias vezes”, tentou justificar a garota. Agora estavam ali, frente a frente. A menina sonhadora e o estudante de jornalismo. A juíza e o jornalista. Duas vidas cruzadas há anos atrás, por poucos minutos, sem encontravam novamente. Quanta mudança, física e temporal, marcava os dois. Mas aqueles olhos não enganavam: era a vendedora de algodão doce. Ou melhor, de esperança.

Fim de entrevista. Depois de tantos pensamentos, a sorte do repórter era ter utilizado o gravador para registrar a fala da doutora. Não conseguira se concentrar um instante no que ela dizia. Decidiu que não revelaria nada, naquele momento, sobre a lembrança. Agradeceu a entrevista e voltou para a redação.

No outro dia, um algodão doce azul deixado na sala da juíza fez a confirmação. “Ele também lembrou”, pensou a vendedora de esperança.

Texto: Eduardo Godoy

domingo, 24 de outubro de 2010

Um conto de eleição

“Vai, corre! Faz a foto, cara!", gritou pra mim o motorista do carro de reportagem, que há alguns meses – desde que começou a dirigir para o jornal - teve a vida inundada de fotojornalismo.

Era um garotinho de uns oito anos, todo maltrapilho, juntando os santinhos que traziam a cara de um determinado político. Era a foto do garoto que chamou a atenção do motorista. O pequeno moleque juntava os papeizinhos para vender por quilo na cooperativa de papel, fui descobrir depois. O piá Francisco, que aparentava um bixo de tão sujo que estava, parecia crente da vitória do tal político.

Na madrugada em que conheci Francisco ele me disse que o futuro dele já estava perdido porque havia começado a “trabalhar” como “aviãozinho” para o dono da comunidade. Uma garoa fina caía e a noite quieta, como sempre, estava de congelar os ossos. Eu, com três blusas, me senti envergonhada por ver o menino com uma calça de moletom toda furada e uma camiseta que se mostrava alguns números menor do que ele.

Passei algumas horas conversando com o garoto, enquanto o motorista do jornal divertia-se com a maravilhosa Nikon D3. Ao me despedir de Francisco, o pequenino me olhou com os seus olhos negros como a noite e me disse “vota direito, tia. Pensa, porque você tem na ponta do dedo o destino de muita gente, inclusive o meu”! Então me despedi, dando ao garoto os trocadinhos que estavam soltos no bolso do meu casaco, pois ele aparentava um imenso ar de fome. Ele, todo faceiro, saiu depois de catar as sacoladas de santinhos e os seus trocadinhos.

Eu fiquei. Aquela fatídica madrugada – comum para mim, visto meu trabalho - que antecedia a "festa da democracia", me fez pensar no meu voto, no que julguei ser melhor. Eram três os mais cotados para a presidência, porém apenas um ganharia e ocuparia a cadeira mais importante do país. E seria sentado naquela cadeira que decidiria o que é melhor para o Brasil. Para minha esperança (ainda não decidi se é mesmo esperança) a pessoa que prometeu cumprir um sonho de qualquer garoto de oito anos, que é ter uma bicicleta, não foi eleita no primeiro turno.

Quando entrei no Fórum Eleitoral às seis horas da tarde de domingo, dia 3 de outubro de 2010, vi um garotinho que me lembrou Francisco. Me encostei ao lado de uma imensa pilha de urnas eletrônicas que haviam acabado de ter suas fitas impressas. Ao olhar o telão e ver que o segundo turno era real, pensei que ainda haviam esperanças para o futuro de milhões de Franciscos que estão por aí. O sábio garoto teve sua fala mais certeira ao dizer que eu deveria votar direito e que o voto deve ser pensado, pois as rodas da vida irão girar pelos próximos quatro anos de acordo com o caminho que os 190 milhões de brasileiros irão escolher.

Texto: Luiza Slaviero - @luhslaviero

domingo, 1 de agosto de 2010

Espera-se a novidade

São Paulo, 14 de julho de 2010



Tarde fria e chuvosa, tempo característico da capital paulista. São Paulo é conhecida como a terra da garoa, não que essa antonomásia seja adequada contemporaneamente, caberia melhor terra dos temporais ou mais amplamente a terra que saturou.

A segunda maior cidade da América Latina tem um número de habitantes descomedido: 10.886.518. Estes algarismos se refletem na economia, sendo assim dona do décimo maior acúmulo econômico do mundo e que inevitavelmente tem resultados no seu sistema de transportes e moradia, constituindo cernes de discussões constantes, mas de soluções ainda não existentes.

A exposição de números sobre a capital econômica do país poderia tomar um espaço e tempo imensuráveis com a amostra de dados sobre a quantidade de água gasta por seus habitantes, a produção de lixo em São Paulo, o quanto deste lixo é reciclado e assim por diante. Porém não é este o objetivo deste texto. Tais informações poderiam ser facilmente obtidas em qualquer site de buscas ao alcance de alguns meros cliques.

Todavia, essa imensidão de dados é inerte se não for analisada de uma maneira minimamente crítica e menos elitista possível. É difícil imaginar como essa quantidade imensa de pessoas se locomove em uma cidade que não foi planejada para tanto, sem contar com os outros tantos indivíduos residentes nos municípios vizinhos - a urbe que forma a chamada área metropolitana - e se dirigem à capital para trabalhar, estudar ou fazer compras. Levando em conta isto, essa idealização fica cada vez mais distante e até certo ponto impossível; não que isso preocupe as autoridades responsáveis, que apenas colocam ‘panos quentes’ no assunto para a próxima gestão, concebendo assim uma discussão sem afinco e objetivo.

Esta constatação, que não é inédita obviamente, interessa muito mais ao proletariado do que à elite, pois esta tem meios para amenizar tal incômodo e não depende tanto do transporte público e outros serviços quanto a classe operária. Até aqui, nada de novo. A nata política não se empenha em resolver o problema de uma vez por todas e assim apenas o maquia temporariamente, enquanto a grande massa sofre com o descaso.



A inovação acontece quando a época de campanha eleitoral se aproxima e com ela os poucos representantes do poder saem de seus palacetes e se dirigem aos grandes conglomerados populacionais, transportados obviamente por seus carros de luxo, para pedirem, e muitas vezes comprarem, o voto dessas pessoas por quantias desprezíveis ou até mesmo por comida, remédios e até dentaduras.

Até aqui a novidade é periódica. A cada campanha eleitoral recomeça a atividade teatral dos candidatos - como também é periódico o ufanismo dos brasileiros, a cada quatro anos lá estão as bandeiras à mostra em todas as casas e lugares, acompanhadas de um patriotismo meramente futebolístico.

A novidade será realmente nova e inédita quando alguém enxergar um político usando o transporte público em São Paulo e sentindo-se satisfeito com isto, quando o paulistano não perder quatro horas por dia no trânsito e quando alguém, com poderes e vontade suficiente, finalmente se empenhar em resolver tal empecilho legitimamente metropolitano.

Texto:
Afonso Verner

Fotos:
1 - Glauco Araújo/G1
2 - Luiz Guarnieri/Futura Press